Contra todas as previsões que apontavam uma estagnação devido à manutenção da Selic em patamares elevados, o setor da construção civil deu um “olha o drible” no pessimismo e encerrou o primeiro trimestre de 2026 com números de tirar o fôlego. As prévias operacionais das gigantes Tenda e MRV não apenas superaram as expectativas, mas sinalizam uma retomada de confiança que o mercado não via há meses.
Como um setor tão dependente de crédito consegue florescer enquanto o custo do dinheiro continua caro? A resposta parece estar no segmento de baixa renda e na eficiência operacional que as companhias buscaram durante os anos de “vacas magras”. Vamos analisar os detalhes dessa explosão de lançamentos.
Tenda e MRV: As Estrelas do 1T26
Os números apresentados pela Tenda foram os mais comentados na Faria Lima nesta semana. A construtora registrou um salto impressionante de 72,2% nos lançamentos em comparação com o mesmo período do ano passado. Esse crescimento não é apenas um “rebote” estatístico, mas o resultado de uma estratégia agressiva de expansão em regiões metropolitanas.
Já a MRV, a maior construtora da América Latina, não ficou atrás. A companhia reportou cerca de R$ 2,9 bilhões em novos lançamentos no setor da construção civil apenas nos primeiros três meses do ano. Esse volume reflete a aposta contínua no programa “Minha Casa, Minha Vida”, que passou por novos ajustes de subsídio no início de 2026, facilitando o acesso ao crédito para as faixas de renda mais baixas.
O “Pulo do Gato”: Minha Casa, Minha Vida e FGTS
O grande segredo por trás dessa blindagem contra os juros altos reside no financiamento. Enquanto o mercado imobiliário de alto padrão sofre com os juros do crédito imobiliário bancário tradicional, as construtoras de baixa renda utilizam recursos do FGTS. Como os juros do FGTS são tabelados e inferiores aos de mercado, o setor da construção civil popular consegue manter as parcelas acessíveis para o consumidor final.
Recuperação de Margens e Confiança
Além do volume de vendas, o mercado está de olho nas margens de lucro. Nos últimos dois anos, o setor da construção civil sofreu com a inflação de insumos (aço, cimento e mão de obra). Entretanto, os relatórios do 1T26 mostram que empresas como MRV e Tenda conseguiram repassar custos de forma eficiente e otimizar processos internos, recuperando a rentabilidade.
A percepção de risco diminuiu. Investidores que antes fugiam das ações do setor agora olham para o dividend yield e para o potencial de valorização, acreditando que o pior da crise ficou definitivamente para trás.
Desafios no Horizonte: Mão de Obra e Custos
Apesar do brilho dos números, nem tudo é asfalto liso. O setor da construção civil enfrenta agora um novo gargalo: a escassez de mão de obra qualificada. Com o aumento simultâneo de obras em todo o país, a disputa por pedreiros, mestres de obras e engenheiros tem inflacionado os salários no setor, o que pode pressionar as margens nos próximos trimestres.
Além disso, a vigilância sobre os preços das commodities metálicas continua sendo essencial, já que qualquer novo choque geopolítico pode encarecer o ferro e o aço, componentes vitais para as estruturas de concreto armado.
Conclusão
O desempenho da Tenda e da MRV no início de 2026 prova que o setor da construção civil brasileiro é resiliente e sabe se adaptar às condições adversas. Para quem busca entender o termômetro da economia real, olhar para as gruas subindo nas periferias das grandes cidades é o melhor indicador. A construção voltou a crescer, e com ela, toda uma cadeia de fornecedores e empregos ganha tração.
